A democracia brasileira tem 40 anos. É jovem para um regime político. A democracia americana tem 250. A britânica, em suas formas mais antigas, tem séculos. Não é que as democracias velhas sejam perfeitas — estão longe disso. Mas desenvolveram algo que as jovens ainda não têm: hábito.
Hábito democrático é a capacidade de aceitar a derrota eleitoral sem questionar a legitimidade do processo. É a disposição de resolver conflitos políticos por meios políticos, não por força. É a confiança — mesmo que parcial, mesmo que cética — de que as instituições funcionam o suficiente para que valha a pena usá-las.
As eleições de 2022 foram um teste para o hábito democrático brasileiro. O resultado foi ambíguo. Por um lado, as instituições funcionaram — o resultado foi apurado, certificado e respeitado. Por outro, uma parcela significativa da população recusou-se a aceitar o resultado, e houve uma tentativa de golpe em janeiro de 2023.
O fato de que o golpe falhou não significa que o hábito democrático está consolidado. Significa que, desta vez, as instituições foram mais fortes do que as forças antidemocráticas. Mas hábito não se constrói em um episódio. Constrói-se em décadas de prática cotidiana.