Em Itaituba, no Pará, há uma rua chamada Rua do Ouro. Não é metáfora. Durante décadas, o ouro extraído do garimpo legal da região passou por essa rua — nas mãos dos garimpeiros, nas balanças das ourivesarias, nos cofres dos compradores. Era uma economia inteira construída em torno de um metal que a terra dava e os homens tiravam.
Hoje, a Rua do Ouro ainda existe, mas o garimpo legal encolheu. A legislação ambiental ficou mais rigorosa. Os custos de operação aumentaram. E o garimpo ilegal — que não paga impostos, não respeita áreas protegidas e não se preocupa com mercúrio no rio — tornou a concorrência impossível para quem tenta operar dentro da lei.
Há uma ironia cruel no colapso do garimpo legal. As regulações que deveriam proteger o meio ambiente acabaram expulsando os operadores que tinham condições de cumpri-las — e deixando o campo livre para os ilegais, que não cumprem nada. O resultado é mais garimpo, mais destruição ambiental e menos receita para o Estado.
Garimpeiros legais que ainda operam na região descrevem uma burocracia kafkiana. Licenças que demoram anos para ser aprovadas. Fiscalizações que tratam o garimpo legal com a mesma suspeita do ilegal. E a sensação de que o Estado não sabe — ou não quer saber — a diferença entre os dois.