Há uma cena que se repete em variações pelo Brasil. Uma pessoa chega a uma cidade que não é a sua — vinda do Nordeste para o Sudeste, do interior para a capital, da periferia para o centro — e percebe que precisa se reapresentar. Não apenas como indivíduo, mas como tipo. O sotaque, a roupa, o jeito de falar marcam uma origem que o novo lugar lê como inferioridade.
Isso não é apenas preconceito individual. É uma estrutura. O Brasil construiu uma hierarquia de brasilidades em que algumas formas de ser brasileiro são mais legítimas do que outras. O carioca da Zona Sul, o paulistano do Jardins, o gaúcho de Porto Alegre — esses são os brasileiros que aparecem na publicidade, nas novelas, nos livros didáticos. Os outros são regionais, folclóricos, exóticos.
O brasileiro típico — alegre, hospitaleiro, criativo, adaptável — é uma ficção útil. Útil para o turismo, para a autoestima nacional, para evitar conversas difíceis sobre desigualdade e exclusão. Mas é uma ficção que tem custos reais para quem não se encaixa nela.
Populações indígenas que não falam português, imigrantes de segunda geração que cresceram entre duas culturas, negros que são constantemente lembrados de que sua presença em certos espaços é recente e ainda contestada — todos eles são brasileiros que o Brasil oficial reconhece de forma ambígua, quando reconhece.
Identidades nacionais são sempre construções políticas. Não há nada de natural em sentir que se pertence a um país — é um sentimento aprendido, ensinado, às vezes imposto. O Brasil aprendeu a ser Brasil de uma forma específica, que privilegiou certas histórias e silenciou outras.
A pergunta não é se o Brasil tem uma identidade. É quem define essa identidade, em benefício de quem, e a que custo para os que ficam de fora.